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  • Daniel Rodrigues Lirio

A crítica da crítica ou  a República dos espelho.


Fora das novelas, o mundo sempre foi bastante violento, repleto de guerras, injustiças ou, para sintetizar em uma palavra: barbárie. Contudo, nos últimos anos, principalmente devido à internet e ao aumento das revoltas populares com o objetivo de sacudir ou derrubar o poder constituído dos mais diferentes países, um fenômeno interessante toma a cena. Ambos os lados da disputa têm acesso a meios de comunicação e tentam angariar adeptos e simpatizantes por meio de propaganda nas quais demonizam seus adversários e explicam a importância de suas posições com uma suposta objetividade. O Facebook é o local por excelência em que esses vídeos e textos serão compartilhados aos milhares.

Aqui no Brasil, as discussões em torno das manifestações, mensalões, cartéis e afins são bastante profícuas em produzir novos posts. Atualmente, outros países quentes na disputa midio-ideológica são a Ucrânia, Venezuela e, como sempre, Cuba; mas África e Oriente Médio também são grandes celeiros dessas quizumbas. Há algum tempo, circulou na internet um vídeo alegando que o ataque químico do governo Sírio teria sido forjado, inventado literalmente pelos oposicionistas, que teriam filmado crianças em câmaras geladas para simular os sintomas do suposto gás. Para quem assiste, fica difícil saber em quem acreditar e, atordoados, nos contentamos com a máxima: “se você acha que está entendendo a situação é porque está mal informado”.

O mais interessante é que ao compararmos as diferentes interpretações dos fatos, vemos que o modo como procuram conquistar o espectador é muito parecido. A situação descrita é sempre óbvia, está claro quem são os mocinhos e os bandidos, há dados objetivos e históricos, e você precisa ser um grande idiota ou um verdadeiro canalha para não aderir ao lado correto. Pior ainda, você precisa aderir imediatamente, caso contrário, algo terrível acontecerá com você ou com alguma criança indefesa, no Brasil ou no resto do mundo. A vergonha por não aderir ou o medo das consequências sãos os elementos decisivos para conquistar o consumidor.

Sim, consumidor, pois o que se apresenta são peças publicitárias com as mesmas estratégias de marketing para vender uma ideologia que se usaria para vender um remédio, um automóvel ou um iogurte. A esfera da política e a da publicidade estão indiscerníveis.

Que fique bem claro, não proponho a equivalência entre os lados, nem que a melhor saída seja o “caminho do meio” ou o “diálogo entre opositores”, mas discuto como, apesar das possíveis diferenças, os atores estabelecem com os espectadores um tipo de relação muito parecido. De fato, eu também tenho minhas preferências quanto às disputas nacionais ou internacionais, mas vejo com tristeza que mesmo aqueles com os quais simpatizo se utilizam do terror e da paranoia para conseguir novos adeptos. Certamente, não se trata de falta de capacidade intelectual – pelo contrário –eventualmente são pessoas com erudição e boas intenções, mas que, na discussão política veiculam automaticamente um discurso pré-determinado por uma esfera superior partidária ou acadêmica, e o fazem de forma tão feroz e convicta que não deixam ao interlocutor qualquer margem para a reflexão: deve aderir ou tornar-se inimigo. O motivo pelo qual até pessoas bem intencionadas e informadas se enredam nessa trama talvez seja compreensível apenas via psicanálise, talvez nem assim, mas a consequência dessa conduta é bem clara, a saber, que o debate político está muito parecido com o debate futebolístico.

De qualquer forma, o pensamento freudiano pode nos auxiliar na investigação deste tema, especialmente se utilizarmos sua apropriação pela Análise do Discurso e pela Psicologia Institucional, bastante trabalhadas pela psicanalista Marlene Guirado. O conceito de Transferência aqui é poderoso. Se um ator estabelece com o seu interlocutor uma relação baseada na paranoia, no medo e na tutela, cabe supor que esse tipo de relação tenha se repetido em outros momentos de sua história, constituindo um modo típico de funcionar, um padrão de comportamento a se repetir no futuro. Adentramos aqui mais fortemente na articulação entre a noção de “Instituição” e de “gênero de discurso” para pensar que se tal discurso tiver êxito, ele tenderá a se repetir e a se cronificar, estabelecendo tal modelo como base.

Nesse sentido, o alvo de uma crítica a qualquer pensamento ideológico deveria se centrar não apenas no conteúdo veiculado, mas no tipo de relação que busca estabelecer com seu interlocutor.

A Utopia, portanto, é a possibilidade de uma discussão política em que se parta do pressuposto que o interlocutor seja inteligente o bastante para poder compreender, discordar ou recolocar o embate de uma melhor maneira, sempre lembrando que a tomada de posição requer tempo para a reflexão e amadurecimento, e que não pode se realizar com a urgência esperada pelos marqueteiros.

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