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  • Daniel Rodrigues Lirio

O Bordel e a Prisão.


Entre as tantas frases instigantes de Lacan, uma tem me parecido especialmente rica:

“Assim que chega a algum lugar, o homem constrói uma prisão e um bordel” (seminário V, p.183)

O sujeito precisa sempre de algo que o arranque do tédio, arrepie seus pelos e erice seu desejo. O bordel é a figura que materializa esse anseio, com sua promessa de liberdade e satisfação. Contudo, diante de tantas possibilidades, o homem pode acelerar demais seu trenzinho, perder o controle e descarrilar. Nada melhor que a figura da prisão para deixar claro que os excessos são terrivelmente punidos, e que é preciso observar a boa conduta. Vivemos, assim, entre o tédio, o bordel e a prisão.

Entre a ideia de satisfação irrestrita e a imagem da contenção absoluta, sustenta-se um desejo em riste. O desejo deve permanecer em suspenso, insatisfeito, pois a satisfação absoluta, imaginariamente, significaria um terrível excesso. Culpados por qualquer deslize, cometido ou imaginado, uma forma de defesa é a projeção. Com ela, os objetos tornam-se aterrorizantes e pensamos ter medo das coisas do mundo. Isso explica uma outra passagem lacaniana: “ao perder meu medo, perdi minha segurança”. Ou seja, o medo é a primeira barreira defensiva, ele nos protege à medida que nos imobiliza. Um passo avante e temos algo pior: a angústia.

Angústia é conceito polifônico, tanto em Freud como em Lacan. Por ora, ficaremos com a sensação de caminharmos no inominável, onde a “coisa” ameaça aparecer e matar a palavra. Uma vez que o sujeito se constitui pela falta e, por esta, entra no simbólico, a ameaça de que a falta seja preenchida é desesperadora. De um lado, esse conceito central nos liga à experiência de desamparo, desamparo quando sentimos que nossa casa simbólica é feita de barro, está cheia de goteiras e ameaça ruir. De outro lado, o conceito de angústia se liga ao conceito de liberdade, quando o sujeito se vê diante de um mundo de possibilidades em sua vida, sendo responsável e implicado em suas escolhas. Nas infinitas triangulações da psicanálise, temos portanto mais uma: angústia-liberdade-desamparo. A verdadeira liberdade surge quando conseguimos enfrentar a angústia do desamparo.

Quanto à prisão, ela tranquiliza o sujeito ao dar consistência imaginária às leis, transgressões e punições. De volta ao bordel, sua existência com promessa de satisfações e pequenas transgressões tranquiliza o sujeito ao contornar um desejo relativamente permitido.

Enfim, em uma época de tantas reivindicações pela alteração na forma como punimos crimes, aceitamos diferentes formas de vivência da sexualidade, descriminalizamos, psiquiatrizamos ou punimos o uso de drogas, vale atentar que nenhuma dessas questões é pontual e que a forma como a sociedade se posiciona diante delas longe de decorrer de uma escolha racional, decorre de como uma sociedade está preparada para experimentar sua angústia, desamparo e liberdade.

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