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  • Daniel Rodrigues Lirio

Velho marinheiro.


Quero começar essa série de pequenos escritos sobre psicanálise e cultura com uma de minhas passagens preferidas da obra freudiana.

Aos 77 anos, tendo enfrentado diversos momentos difíceis em sua vida: decepções pessoais, as agruras da primeira guerra mundial, o falecimento de um neto, o aumento das perseguições aos judeus e um câncer no maxilar; Freud ainda tem vitalidade para continuar sua obra. Na série intitulada “Novas conferências Introdutórias sobre psicanálise”, ele que, devido ao câncer, mal podia falar, dirige-se a uma plateia imaginária de forma viva e exuberante.

Em uma dessas conferências*, ao tratar das pressões que sofremos por parte de nosso mundo pulsional, dos desafios colocados pela realidade, da forte pressão que sofremos para nos adequarmos aos nossos ideais morais e da enormidade do papel desempenhado no psiquismo pelo inconsciente, Freud se depara, então, com o pouco espaço deixado para o consciente. É nesse momento que ele solta a pérola: “sentimo-nos muito inclinados a reduzir o valor do critério do ser consciente, de vez que se mostrou tão pouco digno de fé. Mas estaríamos fazendo-lhe uma injustiça. É como se pode dizer de nossa vida: não tem muito valor, mas é tudo o que temos.” (p.90 ES; p.76GW)

Enfim, é lindo ver como ele articula a teoria com sua própria vida, para falar de seus limites, sua fragilidade, mas, também, do grande valor de se estar desperto, vivo, consciente.

A experiência psicanalítica, metáfora da própria experiência de vida, surge como uma empreitada de um pequeno barco em um oceano infinito, em que é difícil saber se nós o navegamos ou se é ele quem nos navega…

*”Dissecção da Personalidade Psíquica” (Sigmund Freud, Conferencia XXXI, Vol. XII , 1933)

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